Resenha – Vox
Resenha – Vox

No final do ano passado assisti um vídeo-resenha de Vox e me interessou muito por ser uma distopia (não tão distópica assim) envolvendo diretamente as mulheres e suas privações em regimes autoritários e conservadores. Na minha cabeça, seria algo próximo do Conto da Aia, já que ambos têm muitas semelhanças nas abordagens, mas me surpreendi no decorrer da leitura, por estar mais próximo da realidade do que imaginei.

A autora do livro é Christina Dalcher é linguista e professora universitária, e sua formação claramente foi uma grande influência para o desenvolvimento da história. Jean é uma neurocientista que desenvolveu uma pesquisa sobre a capacidade cognitiva da fala. É casada e tem 4 filhos, gêmeos meninos, uma menina mais nova e um adolescente.

Tudo estava indo muito bem em suas vidas até que na última eleição dos EUA, foi eleito Sam Myers, um homem de extrema direita, conservador e que usava a religião como base em sua campanha política. Com isso, ganhou muitos simpatizantes, usando o discurso de que o país precisava voltar às suas origens, a família tradicional merecia destaque e homens e mulheres eram seguidores de Deus e pessoas puras.

Sem dar muito crédito ao fanatismo que tomou conta do país, Jean levou um choque de realidade quando, da noite pro dia, todas as mulheres – inclusive crianças – deveriam se apresentar ao governo e receber pulseiras contadoras de palavras. A partir de então, só eram permitidas 100 palavras por dia para todas as mulheres, inclusive a primeira dama que posava ao lado do presidente como uma mulher recatada, discreta e sempre sorrindo, mesmo que seus olhos dissessem o contrário.

Além da capacidade de se comunicar (telefone, livros, escrita e internet também foram proibidos para mulheres) ser bruscamente arrancada, não era permitido que elas trabalhassem, viajassem sem os maridos e sob nenhuma hipótese poderia existir relacionamento homossexual. Caso alguma regra fosse desrespeitada, a mulher seria humilhada em público e sob pena de passar o resto dos seus dias em trabalho escravo nos campos.

Jean não conseguia entender como o país chegou a esse ponto. Era como se tivessem regredido décadas, em apenas uma eleição. E o que mais me chamou a atenção foi como isso vem acontecendo na “vida real”. Não só aqui no Brasil, mas ao redor do mundo. É como se tivesse chegado ao ponto máximo de evolução da sociedade e agora o único caminho possível fosse para trás.

Em diversos pontos do livro identificava passagens que poderiam muito bem estar em alguma manchete do jornal de hoje. Um trecho que destaquei do livro:

“Aprendi como é difícil escrever uma carta para meu congressista sem ter uma caneta, ou postar uma carta sem ter selo. Aprendi como é fácil para o vendedor da papelaria dizer ‘sinto muito, senhora, não posso vender isso para você’, ou para o trabalhador dos correios balançar a cabeça quando uma pessoa sem o cromossomo Y pede selos. Aprendi com que rapidez uma conta de celular pode ser cancelada e como os rapazes alistados podem ser eficientes em instalar câmeras. Aprendi que, assim que um plano é estabelecido, tudo pode acontecer da noite para o dia”

Fica claro no decorrer da leitura como os homens aproveitavam e gostavam da submissão forçada das mulheres. Todos passaram a mostrar ainda mais desprezo ao ver uma mulher dirigindo, trabalhando ou simplesmente falando. Foi como se eles tivessem finalmente colocado todas em seu devido lugar novamente e tudo estivesse funcionando perfeitamente.

O livro mostra como os direitos (até mesmo os básicos, como falar) das mulheres são os primeiros a serem cortados em um regime totalitário e se torna assustador o fato de que isso não é tão distórpico da nossa realidade quanto parece ser. No final da leitura, me senti com raiva e impotente, como a Jean se sentia.