Resenha – Prisioneiras
Resenha – Prisioneiras

Antes de mais nada você precisa ignorar os juízos de valor que possui, esquecer tudo o que acha que sabe sobre a vida de uma presidiária e não ter preconceito. Este livro não é só sobre presidiárias, é sobre mulheres presas.

Resenha

Prisioneiras é o terceiro da trilogia escrita por Drauzio Varella, que começou com o livro Estação Carandiru, aquele mesmo que deu origem ao filme. E já adianto, se nunca leu ou assistiu, já coloque na sua lista porque vale muito a pena e te dará um bom apanhado sobre o assunto.

Drauzio trabalhou como médico voluntário na Penitenciária do Estado, que hoje comporta mulheres presas. Ele descreve com detalhes a construção de 1920, imensa, recheada de portões, travas e celas. A cada capítulo você se sente mais por dentro dessa realidade que hoje faz parte de milhares de mulheres, cada uma detida por motivos diferentes, mas todas fazendo parte da mesma sociedade: a prisional.

Para quem está do lado de fora, todas as pessoas dentro de uma cadeia são iguais, bandidos, pessoas ruins. Mas Drauzio traz em sua narrativa a questão humana que existe por trás das grades. Ele ouve histórias das mulheres que são atendidas em seu consultório improvisado dentro do pavilhão, conhece a vida difícil que muitas vezes colaborou pra um destino incerto de drogas, assaltos e até mesmo assassinatos.

É impossível não se chocar com as diferentes realidades retratadas no livro. Cada mulher carrega dificuldades, marcas de uma vida que não deu a menor chance de levar pra um caminho diferente do crime. Presas que foram chefe de biqueira, outras que se envolveram com homens criminosos e o amor acabou as levando para a cadeia, algumas que se vingaram de estupradores e hoje pagam o preço por ter feito justiça com as próprias mãos.

O que me chamou a atenção no livro foi principalmente a maneira como o sistema prisional brasileiro funciona. É absurdamente ineficiente e corrompe ainda mais quem entra numa cadeia. Se a pessoa tem 4 anos pra cumprir por um delito relativamente leve, sai da cadeia membro da facção ou se não, sem a menor possibilidade de reitegração na sociedade, já que dificilmente encontra-se empresas que contrarem alguém “ficha suja”.

Além disso, existem as detidas por serem “ponte” entre homens presos e as drogas, levando quantidades pequenas inseridas em alimentos, roupas ou até mesmo em suas vaginas. Essas mulheres são condenadas há, pelo menos, 4 anos de detenção. E como diz Drauzio no livro:

“O que a sociedade ganha trancando essas mulheres por anos consecutivos? O que representa, no volume geral do tráfico, a quantidade de droga que cabe na vagina de uma mulher? Que futuro terão as crianças criadas com a mãe e o pai na cadeia? Quantas terão o mesmo destino?”

Uma família desestruturada, muitas vezes leva a criança ou adolescente a também ir para o mundo “fácil” do crime e tráfico. Ou seja, acaba se tornando um ciclo vicioso para a população pobre periférica das grandes cidades, principalmente São Paulo, com a maior população carcerária do Brasil.

Ler Prisioneiras me trouxe outra perspectiva sobre a população carcerária feminina do Brasil, ser inserida na realidade delas, mesmo que de maneira quase superficial, me trouxe muito mais empatia, principalmente em relação às suas histórias de vida. Acredito que essa leitura é essencial para aqueles que tanto criticam leis e direitos de “bandido”, que fazem questão de bradar o discurso de “bandido bom, é bandido morto”. É importante se colocar no lugar do outro e entender realidades diferentes antes de se tirar alguma conclusão, princiálmente quando se trata de um assunto tão complexo quanto a justiça e prisões brasileiras.

Ficha técnica

Drauzio Varela

Editora Companhia das Letras

E-book ou capa comum

232 páginas