Resenha – Fome
Resenha – Fome

O livro Fome, de Roxane Gay, é uma autobiografia sobre seu corpo, como foi e está sendo o relacionamento com ele diante de todos os acontecimentos marcantes de sua vida.

No início, achei que seria mais um livro de como se empoderar e amar o próprio corpo, aquele clichê que várias mulheres vendem por aí e, muitas vezes, nem elas mesmas acreditam no que dizem. Mas mudei de perspectiva no primeiro capítulo.

“Todo corpo tem uma história e um histórico. Aqui, eu ofereço os meus, com uma autobiografia do meu corpo e da minha fome”, assim, no primeiro capítulo, Roxane nos dá a entender de que sua história vai muito além de se olhar no espelho e amar o que vê refletido.

Aos doze anos, sua vida toma rumos que nem ela soube controlar. Depois de ser estuprada por um menino no qual era apaixonada, Roxane passou a ver a comida e o fato de engordar como um escudo: quanto mais gorda ela ficasse, menos os homens chegariam perto e mais protegida ela estaria de sofrer como aos doze anos. Sua cabeça ficou totalmente ao avesso e decidiu enfrentar tudo sozinha, sem contar aos irmãos ou aos pais o que aconteceu.

Com o passar dos anos ela sentiu que perdeu o controle da própria vida, estudou o ensino médio em um colégio interno de meninas, novamente para afastar qualquer possível contato com meninos. Comia cada vez mais para descontar sua frustração, medo e vergonha. E a cada visita que fazia aos pais, ouvia comentários desnecessários sobre sua aparência e o quão grande estava.

Por diversas vezes, seus pais buscaram maneiras de emagrecimento, foram acampamentos, shakes e dietas extremamente restritas, mas tudo era em vão, pois assim que estava sozinha, Roxane voltava à rotina de alimentação não-saudável para que seu peso aumentasse novamente. Chegou até ao ponto de visitar uma clínica para cirurgia bariátrica, como última alternativa de emagrecimento. Mas não chegou a ir para a os finalmentes.

O que mais incomodou Roxane e a mim, enquanto lia sua história, era como as pessoas passaram a enxergar somente seu peso e tamanho, ignoravam completamente sua inteligência, personalidade ou qualquer outro atributo que não fosse físico. Isso me trouxe à realidade, de como tomamos como verdade absoluta somente a aparência de alguém, julgando instantaneamente como a pessoa está magra/gorda/malhada demais. Fomos ensinados assim, nossos olhos estão viciados em ver e julgar. Você não sabe a história daquela pessoa, mas assimila que, se está gorda é porque come demais e está doente, ou se está magro demais é porque não come direito e está doente. Sempre criando uma verdade que talvez (e é bem provável) não exista.

“Quando você está acima do peso, seu corpo se transforma num registro público, em muitos sentidos. Seu corpo está constantemente em exposição. As pessoas projetam narrativas presumidas em seu corpo e não estão nem um pouco interessadas na verdade dele, qualquer que seja essa verdade”


Capítulo 21, pág 105

Durante toda sua vida, Roxane baseou suas conquistas e autoestima em como seu corpo estava. Isso foi martelado em sua cabeça a todo momento, em programas de televisão, revistas, internet… Todas as mulheres bem sucedidas eram magras, portanto para que ela conquistasse o sucesso, precisava também ser magra. Isso acontece tanto, a todo momento, que chega a ser doloroso. Eu mesma vejo mulheres próximas se depreciando das piores maneiras possíveis, porque não são como a famosa X, mas até que ponto aquela famosa também não se compara e se inferioriza? É um ciclo vicioso e não importa o tamanho da sua cintura ou o quanto sua barriga dobra quando senta, a comparação com outra mulher que, tecnicamente, é melhor, sempre estará presente.

Roxane coloca no livro Fome todos os pensamentos e dificuldades que enfrentou durante os anos que pesava mais de 200 kg. Alguns deles inclusive depois de virar uma escritora best-seller com seu livro Má Feminista, durante os eventos de lançamento, talks que fez pelo país e aparições em programas de televisão. Tudo e qualquer coisa era motivo de pensamentos ruins, se imaginar arruinando o momento por conta do seu tamanho. Até mesmo viajar, algo comum, se transformava em um inferno, já que nem mesmo os assentos de avião eram preparados para uma pessoa do seu tamanho. Era como se ela não coubesse no mundo e se quisesse fazer as coisas mais normais, precisaria ir atrás de se encaixar no padrão aceitável pela sociedade.

“Eu me odeio. Ou a sociedade diz que devo me odiar; então, suponho que pelo menos isso seja uma coisa que estou fazendo direito”


Capítulo 41, pág 129

A leitura foi muito difícil pra mim, em diversos momentos eu me identifiquei tanto que precisava dar uma pausa antes de continuar. Foi um livro que mexeu muito comigo e me fez ver que em muitas coisas que são comuns pra mim, pode ser extremamente difícil para alguém que não tem o mesmo tamanho que eu. E como isso é algo injusto, já que todos nós temos o mesmo direito de ocupar espaço no mundo. A maneira como é medido o sucesso sempre se embasando na aparência físíca de alguém, mesmo que essa pessoa não seja “pública” (inclusive acho esse termo um absurdo, como se quem aparecesse na televisão ou em qualquer outro meio de comunicação desse autorização pro seu corpo ser 100% julgado a todo momento).

Recomendo o livro principalmente para quem tem problemas com a própria imagem. A abordagem da Roxane não são textos bonitinhos sobre como aceitar suas estrias, mas sim relatos reais de uma pessoa real enfrentando o mundo sendo gorda. Importante ressaltar que podem haver gatilhos de disturbios alimentares.